Os Sem-Deuses da Liberdade

Os Sem-Deuses da Liberdade
Por: Lucas Jerzy

“O Deus Pã não morreu,
Cada campo que mostra
Aos sorrisos de Apolo
Os peitos nus de Ceres —
Cedo ou tarde vereis
Por lá aparecer
O deus Pã, o imortal.

Não matou outros deuses
O triste deus cristão.
(…)
Pã continua a ciar
Os sons da sua flauta
Aos ouvidos de Ceres
Recumbente nos campos.
(…)”

Ricardo Reis, Odes

Em vários sentidos, Godofredo é uma decepção – uma feliz decepção!, uma decepção excelente: ele é sempre Outra coisa. Nada nele é o que se espera, mesmo quando o que se espera (a celeridade, a profusão, a densidade típicas da Vendo147) acontece. A começar pela arte: a capa, branca e colorida, nada tem a ver com o logo, a marca da Vendo147, metálica e com cavalos em chamas, que já se tornou emblemática como a dizer: “aqui se faz heavy metal de verdade, e não essa coisa cheia de maquiagem que se vê nas últimas décadas”. Não se espera que um disco assim, com sua arte gráfica mística quase religiosa, seja de metal: e é, e não é.

Tenho dito que a Vendo147 tem o mérito de ter libertado o heavy-metal da viadice de playground. Digo isso da mesma forma com que, nos anos mais duros do Axé-System, eu dizia que mil vezes pior do que pagodeiro bahiano (que ao menos é autêntico e verdadeiramente subversivo) é metaleiro bahiano (que copia gringo e é subversivo-com-mingau-da-vovó). A Vendo147 de alguma forma percebeu isso: que quando o metal surgiu, no blues zepelliniano e no Deep Purple, era sujo, obsceno, pornográfico, macho por excesso de testosterona – e por isso mesmo ambissexuado, surubento. Quer dizer: tudo que o pagodão suingueirararara nunca teve vergonha de ser – e que por isso metaleiro na Bahia negava. Nos shows da Vendo147 é palpável o tesão na troca cúmplice de olhares entre os músicos da banda – levado ao paroxismo pelos clone-drumms, é verdade, mas que comparece também entre as guitarras e na insinuante execução de baixo na beira do palco em frente ao público. Show da Vendo147 é, neste sentido, tão pornográfico (e másculo!) quanto um filme de bare-backing da Falcon Studios.

Não é bem dizer que no Godofredo esta erótica, que comparece na produção de seu cancioneiro anterior a este disco, tenha sumido: ela está lá, mas de outra forma e com outro sentido. Luís Buñuel uma vez disse que Metrópolis, de Fritzs Lang, não era um filme, mas “dois filmes gêmeos siameses unidos pelos intestinos”. Do Godofredo, gostaria de dizer algo semelhante: a distribuição de suas faixas, no índice, tem duas camadas de significação.

A primeira, formal, me remete a tradição russa das suítes de balet. Sabemos que o metal surge, na Inglaterra dos anos 1960, imiscuído com o rock progressivo (e num entrelugar deste com o seu nêmesis, o punk – que nasce de uma camiseta escrita “I Hate Pink Floyd”, uma injustiça, se pensamos que é a menos ostensiva, e mais politizada, banda de progressivo de todos os tempos), ambos buscando uma aproximação formal com a música erudita e a música popular mais ancestral. O Led Zepelling, por exemplo, com seu apelo por um lado wagneriano, e por outro celta; o Gênesis e o Yes e sua clara aproximação com o dodecafonismo e o simbolismo-impressionista.

Não sei se é involuntária esta aproximação com a estrutura das obras de Tchaicovisky, mas ela está aí. Vejo o nome das canções no encarte e penso no segundo ato de O Quebra-Nozes, em que cada país apresenta sua dança para a menina Clara. Um a um, a Vendo147 pede licença, e faz reverência, aos decanos do rock instrumental surgido na Reforma Cultural Brasileira, para só depois apresentar seu God-Of-Freedom: aos gaúchos do Pata de Elefante, Pata; ao Mato Grosso do Macaco Bong, Macaco Azteca; as próprias referências marítimas em diversas faixas, e intergalácticas na capa, é um agô ao Retrofoguetes.

Digo agô porque aí está também um hábito bem yorubá de saudar quem nos precede ao entrar num campo, num terreiro; e é nisto que a Vendo147 cumpre o outro pulo formal do metal e no progressivo nascente dos anos 1960: se o Deep Purple e o Jethro Tull se debruçavam sobre a tradição folk saxônica, é na herança nagô que a Vendo147 quer se assentar. De novo, isto está na imaginária do seu God-Of-Freedom: quem sentia falta das kubrickianas, decadentistas, tesudas máscaras comédia dell’arte que a Vendo147 usava em seus primeiros shows, elas voltaram – só que agora como máscaras rituais africanas, e ao mesmo tempo capacetes de viagens espaciais. Qualquer semelhança com as máscaras de carnaval do BaianaSystem não é mera coincidência. Como em uma impossibilidade congênita, a Vendo147 realiza um inusitado encontro do Benin com a Escandinávia.

Talvez o momento em que isto fique mais claro é na belíssima Mar Aberto: uma berceuse, um lullaby, uma cantiga de ninar, e ao mesmo tempo um ijexá. Certo, ritmicamente não é um ijexá – mas o espírito de paz, de aláfia, e o instrumental percussivo (aliás, sem clone-drumms) está lá. E é nesta Mar Aberto que esta primeira camada de significação, formal, se enoda com a segunda, que seria digamos de “sentido”.

Se Godofredo parece uma suíte de Tchaicovisky (em especial, de O Quebra-Nozes), com o nó de Mar Aberto ela vira algo de Stravinsky – e aí penso particularmente no Pássaro de Fogo: um crescendo atormentado de uma fênix morrendo em suas próprias labaredas é bruscamente rompido pelo pianíssimo de seu próprio ovo chocando – a paz depois da tempestade. E se no balet de Stravinsky o ponto de corte vem logo antes de sua berceuse, no prestíssimo, agitado, pesado encontro do Pássaro com os deuses da morte, aqui não é diferente: a calmaria vem depois que o autor/ouvinte tem a epifania do Deus da Liberdade.

Que calma é essa que advém depois do encontro com o Deus da Liberdade? Vingança, pretendida desde a primeira faixa, saciada ou desistida? A redenção após o afogamento no Mar Revolto? O satori zen após o Sobressalto? Não sabemos. Por mim, fico com a hipótese do “pós-coito, animal triste” (triste no sentido de não mais agitado). O sensualismo, masculino e agressivo, da Vendo147 pré-Godofredo comparece em todas as faixas, até esta; e aí, como depois do orgasmo, uma canção de embalar não bebês, mas amantes abraçados: Mar Aberto. Porque, nos lembra Georges Bataille, o sentido do erotismo é exterminar com a descontinuidade entre os corpos, e do desejo não é satisfazer-se, mas, evanescer-se fazendo liga entre dois ou mais corpos abraçados, quando some – o erotismo é enquanto política uma prática subversiva, mas, enquanto mística, uma prática religiosa.

E este enodamento do místico com o obsceno, que é dos Orixás, é também do paganismo teutônico do heavy-metal originário: o Led Zepellin IV, sensual e sujo no primeiro lado (Rock’n Roll, Wholle Lotta Love), torna-se mitificante e religioso no lado B (Stairway to Heaven, Battle of Evermore).

Por fim, e sem querer fazer lobby, esta sofisticação reflexiva final do Godofredo parece um convite para o hard rock literário-instrumental da Tentrio, e seu nascente disco Melville. Quero crer que a última canção não se chama Koda por acaso – depois de pedirem licença aos que já os precederam, a Vendo147 abre passagem para os vindouros.

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